Ainda sem título

Eu estava debaixo do chuveiro quando me veio de repente a inspiração para um post sobre amor.

Quer dizer, não necessariamente sobre amor, mas sobre relacionamentos, quantidade de mulheres na cidade versus quantidade de homens; fatores determinantes na hora de escolher uma companheira; o vizinho da minha tia, as convicções dele e a conclusão decepcionada dela ao fim da nossa conversa; Prozac, Frontal e demais fármacos que tornam a nossa vida mais fácil nesse campo minado da solteirice, enfim… Seria um post meio melancólico, meio reflexivo, pouco auto-biográfico (abraçando o prazo de mais 3 anos para a definitiva conversão da ortografia para aquela que ninguém entende direito ainda e que vai foder mil e tantos vestibulandos daqui a 3 anos) e que, como todo post com um quê de fel, seria devidamente inspirado por música nenhuma e a voz do Miguel Falabella ou de alguma narradora dramas foda ao fundo ou por Sade, Adele ou qualquer outra dor de cotovelo.

Mas aí eu resolvi abrir meu pen drive de mil oitocentos e trinta e sete, vi um arquivo que é um vídeo da Beyoncé, lembrei que eu queria baixar uma música dela, entrei no 4Shared (não me julguem, não tenho dinheiro nem pra baixar do iTunes a 0,99), dei um preview na música, fiquei animadinha e fodeu toda a minha inspiração para um post típico de uma redatora solteirona, sentada na frente do computador de pijama, cabelos molhados e óculos, numa sexta-feira à noite, sem porra nenhuma pra fazer.

Fim do post. Vou tentar escutar uma música deprê solidão antes que o início daquele outro post se vá de vez e eu perca a chance de, sei lá, ganhar um Pullitzer por um drama romântico, um prêmio Esso de jornalismo ou a cadeira do Eça de Queirós na Academia Brasileira de Letras.

Cacete. Eça de Queirós é português. Lá se foi minha cadeira.

Blogar

Blogar é ao mesmo tempo uma arte, um amor, um vício e um problema.

Blogo desde os 19 anos. Sempre dou voltas em torno do rabo e por mais que tente me desviar, acabo caindo nos mesmos temas: moda, artes, música, literatura, algumas viagens e… sentimentos. É uma coisa isso. E cada um lê de um jeito, né?

Foram tantos blogs ao longo dessa estrada que já nem faço mais contas de quantos eu abri e encerrei.

E o blog, fundamentalmente, foi feito para ser um diário eletrônico. As pessoas publicavam seus sentimentos e opiniões para fazer coro e fórum com outros corações partidos, turistas perdidos ou partidários fanáticos de alguma causa.

Eu blogo pelo prazer de escrever. Para compartilhar. Para conversar.

Outro dia estava lendo (ah, sim! Também leio muito!) e vi um autor que descreveu exatamente como me sinto quando estou escrevendo:

Para quem escreve?

Para ninguém. O escritor escreve para acalmar os seus próprios fantasmas interiores. Tenho descoberto que as pessoas com quem gosto mais de falar são aquelas que não têm voz. Existe um jogo de adivinhação que gosto de fazer, que é o de questionar alguém que nunca foi chamado para dizer nada. O que é que essas pessoas gostariam de dizer? É isso que me faz correr.

Fonte: http://www.livrosepessoas.com/2012/07/27/mia-couto-escrevo-para-acalmar-os-fantasmas/

E quando eu escrevo, imagino várias pessoas tendo com meus textos a mesma reação que tive ao ler este trecho da entrevista de Mia Couto: “puxa, ela escreveu pra mim!” Ou “caramba, isso descreve a minha vida!”.

Muita gente me critica MUITO. Diz que eu exponho minha vida para todo mundo, que eu coloco meus problemas e dilemas na rede. Não é bem assim… Se fosse, todos os textos do mundo seriam a literalidade de múltiplas personalidades de milhões de pessoas. Afinal, Tati Bernardi e Gabito Nunes (alguns dos meus preferidos) não sofreram TANTO assim de amor. E nem tiveram TANTAS pessoas assim permeando sua história.

É fato e unânime entre todos que tem a sensibilidade na pontas dos dedos (no sentido metafórico que de usamos os dedos para escrever) que a tristeza inspira mais que a alegria. Comigo não é diferente. Tenho meus desapontamentos com o mundo, com as pessoas, com as minhas próprias expectativas. É normal. E nessas horas, invoco Paulo Leminski que diz:

Razão de ser

Escrevo. E pronto.

Escrevo porque preciso

preciso porque estou tonto.

Ninguém tem nada com isso.

Escrevo porque amanhece.

E as estrelas lá no céu

Lembram letras no papel,

Quando o poema me anoitece.

A aranha tece teias.

O peixe beija e morde o que vê.

Eu escrevo apenas.

Tem que ter por quê?

Fazendo uma retrospectiva nos meus textos, vejo claramente a tristeza e a beleza da tristeza em todos eles. Mas eles não, necessariamente, descrevem algum fato que aconteceu AGORA. O sentimento de hoje pode evocar uma lembrança de ontem. Alguma coisa que não foi dita a alguma pessoa que nem pertence mais à sua história. Alguma carta (ou e-mail, né?) que não foi enviada, alguma lágrima que não foi devidamente derramada, algum desespero que não fluiu, algum porre que não se tomou. E tudo vira material de pesquisa. O acervo da história de cada um. O momento caça-fantasmas. Porque, diz aí, hoje tudo pode estar bem, mas no dia, naquele dia da briga, do adeus, a sensação é de que a dor não ia acabar NUNCA MAIS.

Escrever é a minha forma de mandar embora até os caquinhos de ficaram debaixo do tapete e de dizer a quem interessar possa que não, você não está sozinho(a). Eu também passo por isso.

A maior prova que tive de que não estou sozinha no mundo e dou alento a muita gente é o meu texto publicado em 2010, no blog Don´t Touch My Moleskine, da Dani Arraes. Até hoje são mais de 4.600 likes no Facebook. O feedback foi impressionante!

Gente dizendo: “Nossa, adorei esse texto. Me identifiquei muito² com ele. Muito bom mesmo.” E “incrível saber que outras pessoas passam “exatamente” pelo que passei, e depois de muita lágrima conseguem seguir em frente. Já senti e sinto isso, e imagino a sua felicidade, de ter vivido, de ter amado, e de seguir…

É de uma alegria sem tamanho, e é o que me motiva a continuar escrevendo não para me expor, como muitos falam e julgam, mas porque Vinícius o fazia, Drummond o fazia, a Tati faz, o Gabito faz, a Fernanda faz. Tem elementos de vida real? Claro… A gente sempre procura no baú uma dor parecida com a atual para embasar os argumentos. Mas toda e qualquer semelhança com a minha vida real é mera coincidência.

Outra coisa: povo, eu não sou rica! Deus me deu o bom gosto e me tirou o dinheiro. Mas não me tirou a inteligência, o olhar apurado, o interesse pelo bom e pelo belo e a capacidade de criticar.

Se eu posto Armani, Louboutin, Dior, Chanel, Van Cleef & Arpels é porque eu leio, porque eu vejo, porque eu me interesso, porque eu consigo falar sobre e não porque eu TENHO/SOU!

Ando de Uno Mille comprado em suadas 36 prestações. Batido, sujo, zoneado e precisando de revisão (FIAT, dá uma forcinha pra nós!). Mas amo meu veículo! Encaro a louça na pia, as roupas sujas e uma vassoura como poucas, porque não tem grana pra pagar empregada todo dia. Sou do tipo que se vira no bolinho de arroz no fim do mês quando a geladeira e a carteira esvaziaram ao mesmo tempo! Mas paro tudo quando chega a Vogue, a Bazaar e quando é hora do GNT Fashion. Por que não?! Panis et circenses!

Então vamos lá… Abra essa cabeça… Se deixe viajar por outros mundos, outros sentimentos, outras poesias e inspirações….