Gerente de quê?

Então você acordou um belo dia e na sua assinatura de e-mail, abaixo do seu nome, a descrição do seu cargo começa com a palavra GERENTE.

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Gerente financeiro, de RH, de marketing, de mídias sociais (agora é moda!), de planejamento, comercial, jurídico, de projetos… Se você está aí, no meio do caminho entre os executores e a diretoria, alguma coisa certa você fez. E alguma coisa você tem para ensinar aos que ficaram abaixo de você.

Sim, porque gerente sem subordinados, não existe. Você precisa de pessoas que cumpram determinadas tarefas (inúmeras tarefas), que você administra, gerencia, trabalha para que essas tarefas saiam a contento.

Leu bem o que eu disse no início da última frase? Você PRECISA de PESSOAS. Para ficar aí em cima e continuar sua escalada rumo ao topo, você precisa que aquele monte (montinho ou montão) de PESSOAS façam o trabalho delas direito, bem feito, pra você poder apresentar um relatório digno pro seu chefe e dizer que você conseguiu.

Então além de gerenciar o número de checks da sua lista de tarefas do dia, você tem que gerenciar as PESSOAS que trabalham com você (ou se você for muito egocêntrico, gerenciar as pessoas que trabalham PARA você). E aí que está o grande lance entre você ser um gerente de respeito e ser um escroto.

Tem gente que domina a arte da escrotice! Fonte da imagem: Getty Images

Todos os seres humanos saem da cama com um propósito de manhã. Esse propósito pode ser chegar na hora, bater o cartão, cumprir as tarefas do dia com o mínimo esforço necessário para não ser demitido, ir embora na hora e receber o salário ou pode ser algo maior: o cara pode amar o que faz e querer buscar um caminho próspero para a carreira que resolveu seguir. Pode querer buscar se aperfeiçoar, aprender, crescer, ampliar relacionamentos, acumular conhecimento e aplicar com os clientes (internos ou externos) da sua própria empresa – e fazê-la crescer. E, garanto, o tesão desse cara depende de você, gerente.

Se você for um cara centralizador, castrador e mau educado, vai perder seus talentos (funcionários e clientes) em dois tempos. De gente medíocre o mercado está cheio. Custa é pra garimpar quem realmente está a fim de ter um TRABALHO e não somente um emprego.

A receita pra jogar água no fogo de um bom funcionário não é extensa: basta um tanto de ego. O gerente que não delega, não confia, não transmite seus conhecimentos e não deixa seus funcionários explorarem suas melhores capacidades, acreditando ser sempre o motivo e a razão de tudo existir, não retém gente boa e não contribui para a empresa crescer – pelo contrário. Qualquer pessoa que passar pela sua equipe vai definhar ou vai sair. Fato.

Gerenciar pessoas e as tarefas das pessoas exige um grau alto de altruísmo e confiança em si próprio. O gerente indispensável é aquele cara que todo mundo ama ter como chefe. Ele pode até não ser tão bom como executivo, mas é uma pessoa que certamente vai cativar uma equipe que pode ser boa por ele.

Cena do filme “Os Estagiários”. Quer melhor definição de gerente? Fonte: Best Cine

Todo funcionário tem uma vida fora da empresa. Tem sonhos, expectativas, família, amigos, problemas, frustrações. E mesmo que tenha só um gato, é legal que o gerente se interesse por isso. Que seja flexível, que incentive a melhorar, que dê uma mão, uma palavra amiga ou um dia de folga.

Tem que se responsabilizar pela vida do funcionário fora da empresa? Lógico que não. Quem está registrado sob um CNPJ está para trabalhar, não para fazer amigos (a priori). Mas é bom saber que o trabalho é um conforto, um passo à frente, e não um martírio. Isso é trabalho do gerente. Tratar bem é o mínimo. É o respeito por aquela pessoa que não está ali para te fazer um favor, e sim porque, de alguma forma e em algum momento, você (ou sua empresa) fazem parte da vida ou dos objetivos dela. E ela sabe disso.

É fato que tem gente sem perfil pra ser gerente e que é promovido apesar disso, levando em conta somente a sua produtividade como executor. Alô, diretoria! Esse papel cabe a vocês – que nada mais são do que grandes gerentes que gerenciam gerentes – que também são pessoas.

Já vi muito vendedor que era muito foda no que fazia. Tinha uma excelente carteira, vendas acima da média, bom contato com os clientes. E quando virou gerente comercial, viu a carreira definhar. Porque apesar de saber lidar bem com os clientes, não sabem liderar os funcionários.

Eu tenho pra mim que ainda não sei ser gerente. Não porque eu não considere as pessoas (acho que nesse ponto eu seria até meio mãe), mas porque não consigo desapegar das minhas tarefas. Não consigo delegar um texto para alguém redigir, não consigo pedir para que outra pessoa interprete e faça uma análise de um relatório, não consigo receber um briefing de uma terceira pessoa que não seja o cliente direto. Essa distância me incomoda, é muito grande, eu sinto que ainda perco alguma coisa no processo. Não que eu ache que só eu consiga fazer o que eu faço (até porque tenho um par que atende outros clientes), mas eu não consigo desapegar das minhas responsabilidades. Sei disso.

Pra mim hoje vale mais a minha satisfação com o meu trabalho, a minha sensação de dever cumprido, do que um título no crachá. Claro que tenho grandes aspirações e que, em algum momento, vou ter que delegar para alcança-las. Mas ainda não é a hora, não me sinto pronta ou madura o suficiente para isso. Quando for a hora, eu vou. Enquanto isso fica aqui o meu pleito por gerentes que tenham a real noção do que é ter uma equipe e do que é gerenciar pessoas. E não um vampiro de produtividade.

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