Eu e os plantonistas

Acabei de ler mais um relato de parto do Instituto Nascer. Estou com 20 semanas e ontem estive lá de novo para mais uma massagem com a Camila. Confesso que cheguei a pensar em arriscar um parto normal. Desde que fosse no Vila da Serra. Desde que eu fosse anestesiada. Não sei por que, mas eu tenho me preparado para parir. Assim, PARIR. Alguma coisa me diz que dessa vez vai ser diferente. Deus me livre, lógico. Mas isso não sai da minha cabeça.

Esse relato foi de uma mãe que teve parto normal com 33 semanas. 33 semanas… Não, não pode sair neném com 33 semanas! É arriscado demais, né não? [Pausa pros meus pensamentos…]

Aí ela fala da bolsa rompendo com ela em casa sozinha. Eu penso: não quero isso nem se a torcida do Flamengo estiver comigo.

Ela fala que a placenta não saiu. Eu penso: em cesárea isso não acontece.

Ai, ela fala tanta coisa, de tantas dores, tantos inesperados que eu confirmo: realmente quero a cesariana. O desconhecido me gera um medo e uma ansiedade muito, muito, muito grandes. E ansiedade é a única coisa nessa vida que eu não consigo controlar.

Aí ela xinga plantonistas e enfermeiras do Vila da Serra. Fala que a pediatra plantonista estava urubuzando o parto dela, que a enfermeira era tosca…

Olha, eu sei que os profissionais que trabalham sob stress constante em hospitais e pronto-atendimentos tendem a ser um pouco mais insensíveis e mais técnicos, estatísticos, mesmo lidando com gente. Também sei que, em se tratando de um hospital materno-infantil a sensibilidade desse povo devia ser maior ainda. Quem está lá e não é mãe, vai ser. Quem já é, está com uma criança. E deveria ser aplicado um teste, uma dinâmica especial em quem trabalhasse ali. Concordo mais ainda que se você não tem nada que preste pra falar, que não fale nada. Que não diga absolutamente nada sobre o bebê nascer com 33 semanas, que não traga nenhuma palavrinha negativa para onde a criança vai nascer. Eu sei de tudo isso.

Mas também sei que eles estão ali trabalhando para salvar vidas e não para atender caprichos.

Eu sou tipo frequentadora de hospital. Sério. Tive endometriose duas vezes, tenho sinusite crônica e um baixíssimo nível de tolerância à dor. Posso arriscar dizer que conheço, pelo menos, 30% da folha de pagamento do Vila da Serra. E sei que as pessoas que trabalham lá, principalmente no plantão, são muito bem intencionadas e já viram todo tipo de desgraça acontecer. Paralelo a isso, desconheço o médico que fica OK perdendo paciente. E isso acontece. Toda hora.

Então não acho que plantonista agoure o parto de ninguém. Acho que plantonista está ali para fazer o que tem que ser feito. E se tirar a criança é o que tem que ser feito – pelo bem dela e da mãe – então que se tire a criança! E eu entendo a cabeça de plantonista: tem aquela ali que está parindo, tem a outra que está na fila pra parir, tem a que está morrendo com pressão alta, tem a que abortou e está sangrando. Tem essa multidão de mulheres, cada uma com a sua dor, que precisam da mesma médica. E é obrigação dela salvar todas aquelas vidas no menor espaço de tempo possível!

Mesma coisa pra enfermeira. A gente surta de esperar que elas venham para nos ajudar, nos socorrer, trazer o remédio, o soro, o resultado do exame, o médico pelos cabelos. Estive internada há pouco tempo. Sei disso. Mas é a nossa campainha e a do resto do andar tocando!

Por saber disso muito bem, eu não tive o primeiro e espero não ter a minha filha no plantão. Por saber disso, eu vou pagar (caro!) para ter o parto com a minha médica de confiança (mesmo se não for na hora que eu tiver planejado).

Com relação aos anestesistas, saiu uma pesquisa que mostra que “em alguns procedimentos cirúrgicos, a anestesia é a etapa mais delicada de todo processo. Aplicá-la, ficar atento aos sinais vitais do paciente e observá-lo durante a recuperação é a função de alguns enfermeiros. Um erro pode custar uma vida. Por isso, a complexidade da situação rendeu para estes profissionais 78,8 no item que mede as consequências de um erro durante o expediente. Em stress, a pontuação foi de 94,7. E, em pressão do tempo: 67.” Fonte: http://goo.gl/aCd9lQ

No meu primeiro parto, você acha que o anestesista foi MEGA LEGAL?! Não, não foi. Ele foi bom, preciso, mas não foi uma gracinha. Eu tava tensa, com medo, uma agulha gigante ia entrar nas minhas costas, entre as minhas vértebras e, mesmo tendo passado por uma consulta com um anestesista antes, eu morria de medo de dar qualquer coisa errada e eu ficar paralítica (eu sei que isso é bem difícil, mas não há racionalidade no medo, trust me)!

Na primeira tentativa de aplicação da anestesia, eu mexi. O raio da picada doeu e eu mexi. O médico ficou feliz? Não! O que quer que acontecesse, se eu dançasse Ragatanga na hora, a responsa seria dele. Então ele engrossou a voz e (eu lembro como se fosse hoje) disse: “Camila, você tem que cooperar. Você tem que ficar quieta e se concentrar, senão eu não vou conseguir fazer.”

Segurei firme nas enfermeiras (tomei a anestesia sentada) e falei alto pra mim mesma: “Vamos lá, quieta, Camila. Fica firme aí!” Segurei o ar, fechei o olho e deixei arder! O cara tá lá fazendo o trabalho dele, me ajudando a trazer meu filho pro mundo, pra mim, tirando a minha dor, fazendo o melhor que pode! E com a pressão do mundo nos ombros. Pô! Tem dó!

Enfim… Eu sou mimada, todas as mães merecem ser mimadas e tal. Mas todos os seres humanos merecem ser respeitados e seus trabalhos valorizados. Gosto do povo do Vila da Serra. Toda vez que meu calo aperta, eu corro pra lá. E como ou eu gosto muito ou odeio profundamente, fica aqui a minha defesa àquelas pessoas que, mesmo com toda a correria do mundo, fazem o que podem por mim quando eu dou o ar da minha graça precisando de ajuda.

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Uma resposta em “Eu e os plantonistas

  1. Tb tenho experiência com os plantonistas do Vila, infelizmente eu estava abortando e passei o dia inteiro internada lá para realizar uma curetagem e pude presenciar na loucura q é aquele hospital , muito cheio e uma correria para se conseguir atender aquele mundareu de mulheres parindo, mas apesar de algumas situações chatas eu não tenho absolutamente nada a reclamar do atendimento das plantonistas que foram extremamente educadas porem não podem ficar bajulando ninguém pq infelizmente é muuuito cheio o hospital, poucos medicos para muita gente, agora estou grávida e irei ter meu parto lá mas pela experiência tb faço questão de pagar CARO para ter mais atenção da minha médica.

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